Feliz ano novo (!) Parte I

A Ponta e o Ponto (e a Ponte) 

As canetas prateadas que uso para autografar são manhosas. Algumas já saem da caixa secas. Outras, por químicas que desconheço, rapidamente se exaurem liberando um líquido incolor. As que funcionam normalmente começam com a ponta fina demais para o traço que desejo. Depois de algumas dezenas de autógrafos, a ponta amacia e arredonda, o traço ganha a espessura que me agrada.
Quase “no ponto”. Quando a tinta perde homogeneidade e a ponta desfia um pouco mais, a caneta chega ao ponto. As letras ficam plenas de expressividade, como se traçadas por um pincel. Neste estágio, me encantam as nuances nos traços que compõem uma letra, as variações de tom nas palavras de uma mesma frase.
Um degradê expressionista, consequência do ritmo e das pausas da escrita. A cada pequeno intervalo no fim de uma palavra, a tinta humidifica novamente a ponta, reestabelece a força do traço. Força que vai se perdendo no decorrer da palavra seguinte. Semelhante às tomadas de ar em meio à fala? Talvez.
A variação no timbre da caneta me agrada porque desburocratiza o ritual dos autógrafos, renovando seu caráter artesanal. O texto, a música – início de tudo – são artesanais. Mas o livro, o disco – produto final – são industriais. Autógrafos podem ser a ponte. Ou, para ser menos heróico: um viaduto. Ou ainda, para fazer uma figura de imagem mais bonita: um elevado no cruzamento sempre difícil de atravessar entre artesanato e indústria.
Infelizmente, “o ponto” é mesmo só um ponto. Impermanente. O canto do cisne, obra da maturidade de uma Sharpie prestes a morrer. Ocaso. Logo ela começa a falhar irremediavelmente. Do melhor ao pior quase sem escalas intermediárias. E só dá pra saber que o traço já não tá legal escrevendo. Como parar antes de ser tarde demais?
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How Do You Stop Before It’s Too Late? canta lindamente Joni Mitchell na regravação do hit de James Brown. É mesmo uma arte saber parar.
Quando o exagero passa a ser exagero? Em que ponto deixa de ser pródiga exuberância? Como parar no degrau anterior, na hora certa?

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Tenistas do passado usavam cordas de tripa natural, com ótima performance mas muito frágeis. Corriam o risco de vê-las arrebentar em meio a um ponto importante. Por isso, preventivamente, trocavam de raquete algumas vezes durante a partida.
Em sua curta vida, quanto mais usadas melhor ficavam as cordas de tripa. Em outras palavras: o momento ideal era imediatamente antes de partirem-se. Triste para quem decidiu jogar um ponto a mais do que deveria. Um ponto além do ponto.

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Alguns luthiers afirmam que um bom violão precisa de sessenta anos para amadurecer, para que seu som atinja o auge. Calma, peraí! Antes de ir ao mercado correndo atrás de algum violão sessentão, saiba que, no mesmo fôlego, o especialista acrescentou que, um dia após os sessenta anos, o violão começa uma irretornável jornada decadente. Já foi, tarde demais.
Mas, o que é mesmo um bom som de violão?
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Gaúchos apreciadores da boa costela – seja no ponto, mal ou bem passada, – dizem que a melhor carne está perto do osso. Ouço sons de dentes quebrando.

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O fascínio de visitar a borda do abismo deve ser um dos componentes do vício em jogos de azar. De todos os vícios, será? Lembro Neil Young cantando The Needle and The Damage Done. O ponto e a ponta. Da agulha. O estrago feito. How do you stop before it’s too late?
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Ops, pesou o astral? Eu devia ter terminado o texto antes do exemplo junkie? Como parar de escrever antes de ser tarde demais?
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Bah 01: Preciosismos estéticos à parte, usar uma caneta só no seu traço perfeito seria muito anti-ecológico. Igual a desperdiçar água potável lavando calçadas na estiagem do verão.
Um alento: cada assinatura, mesmo as feitas ainda antes e já depois do traço ideal, vale pela singularidade. São únicas, como é único cada momento da vida. Artesanato existencial. Formação, apogeu e decadência do traço perfeito.
há o ainda antes
e o já depois
e há tudo que há
entre os dois
Bah 2: ah, falando em ecologia: se quiser reciclar um calendário de 2003 ano que vem, vai firme. Serão anos iguais na relação do dia da semana com o dia do mês.

Feito.
É o que tínhamos para 2013.
Agradeço a companhia
nas viradas de segunda pra terça
ou seja lá qual for
teu momento de leitura.
Preciso te desejar um ótimo 2014
(no ponto)
antes que seja tarde demais!
31dez2013
 Por Humberto Gessinger